Brasil é medalha de prata em transgênicos

Por Viviane Taguchi, originalmente publicado na Revista Globo Rural

Em 2015, o Brasil plantou 44,2 milhões de hectares com transgênicos, segundo o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (Isaaa), um crescimento de 5% em relação a 2014.

Nenhum outro país adotou a biotecnologia agrícola com tanta rapidez. O país é o segundo maior plantador de transgênicos do planeta, atrás dos Estados Unidos, que cultivam 70,9 milhões de hectares. Conhecimento, segurança e produtividade são os fatores que impulsionaram a adoção da biotecnologia no país, diz Adriana Brondani, diretora do CIB. Mas o avanço deve ser estável nos próximos anos, apesar da liberação de mais variedades transgênicas, entre elas o eucalipto e o feijão, já aprovadas, mas ainda não comercializadas.

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Adriana Brondani, diretora executiva do CIB

Globo Rural: O estudo do Isaaa mostra que nenhum outro país do mundo adotou mais transgênicos do que o Brasil nos últimos anos. Por que isso aconteceu aqui?

Adriana Brondani: O agricultor tem conhecimento sobre a transgenia e confia na tecnologia, ele sabe que é seguro, embora haja estudos tentando provar o contrário. E, nos últimos anos, 14 plantas com características que ajudam o agricultor brasileiro foram aprovadas. O produtor é ávido por tecnologias, ele estava esperando as aprovações (da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, responsável por aprovar e liberar variedades transgênicas para o plantio) e as adotaram rápido. Na soja, temos adoção de 94%, no milho, 84%, e no algodão, 73%. A taxa média de adoção de biotecnologia no Brasil para essas três culturas é de 91%.

GR: Os agricultores conhecem o transgênico, mas os consumidores ainda não. O que é, exatamente, um transgênico?

Brondani: Transgênico é um organismo que recebe um ou mais genes de outro organismo e passa por uma transformação genética para expressar uma característica específica. Nós (pesquisadores) sabemos que são genes estudados, são conhecidos pela comunidade científica. Quando o gene aplicado resulta em um alimento, priorizamos que se retirem genes de espécies que já convivem no ambiente, não de organismos distantes da cadeia de produção. São genes de plantas e bactérias do solo que estão integrados no sistema. Há mais de 40 anos a comunidade científica conhece as proteínas resultantes da expressão desses genes, sua origem, mas o consumidor não sabe disso. É falta de comunicação.

GR: O que poderia ser feito para que eles soubessem?

Brondani: Existe muita fantasia em torno dos transgênicos. Acham que trabalhamos com a combinação de organismos estranhos e que isso pode ter um impacto em sua saúde. É uma preocupação válida, tem de existir. Eu, se não fosse cientista, ia querer saber o que estou consumindo. A transgenia foi apresentada para a sociedade de uma forma fictícia e, na prática, é muito diferente.

GR: O CIB trabalha para melhorar essa comunicação?

Brondani: O CIB surgiu dessa necessidade. É um órgão sem fins lucrativos que nasceu para aproximar cientistas, pesquisadores, empresas e sociedade. Os pesquisadores sentiam a necessidade de esclarecer a sociedade sobre o trabalho que estavam fazendo porque a resistência era imensa. Hoje, a situação é diferente, mas ainda há resistência. Nosso desafio tem sido trabalhar a comunicação entre a comunidade científica e diferentes públicos. E não é um desafio só no Brasil, é no mundo inteiro.

“A transgenia foi apresentada para a sociedade de uma forma fictícia e, na prática, é bem diferente.”

GR: Como e quanto tempo é necessário para criar um transgênico?

Brondani: Levam-se, em média, de 12 a 15 anos, incluindo as fases de pesquisa, desenvolvimento, testes e aprovação. É preciso isolar o gene, introduzi-lo, inseri-lo na célula, acompanhar o desenvolvimento da planta, testar seus impactos. Os protocolos de testagem são internacionais e todos os países que aprovam transgênicos seguem os mesmos critérios de avaliação de risco. É preciso caracterizar o gene introduzido, os impactos naquele organismo, na planta, no ambiente, nas interações daquela planta com os organismos, sejam eles microrganismos, animais ou seres humanos. Em alguns casos, levam-se até 20 anos. É normal.

GR: Os riscos dos transgênicos aparecem em que fase?

Brondani: No início, durante o processo de transferência de gene. Testes iniciais de comparação do gene mostram que tipo de proteína ele originará. Se originar uma proteína que tem semelhança estrutural com alguma proteína alergênica, ele não pode ser levado adiante. A Embrapa estudava o desenvolvimento de um feijão rico em metionina, um aminoácido, com genes retirados da castanha-do-pará. Era um trabalho incrível, poderia ser desenvolvido um feijão com valor nutricional alto, mas o trabalho foi abortado porque a castanha causa alergia em algumas pessoas, em um percentual pequeno, mas causa, então foi paralisado.

GR: A taxa média de adoção de 91% tende a crescer ainda mais nos próximos anos?

Brondani: É uma taxa alta, próxima a 100%, acredito que estamos atingindo a estabilidade. O Brasil ainda tem muitas áreas para ser abertas para a agricultura, mas a tendência na adoção de biotecnologia é de estabilização.

GR: O eucalipto transgênico aprovado pela CTNBio gerou polêmica, sobretudo entre os apicultores, que temem que haja um forte impacto em sua atividade. Existe esse risco?

Brondani: Esse eucalipto é um transgênico com ganho de produtividade. Ele não tem resistência a herbicida ou a insetos. Ele cresce mais rápido porque recebeu o gene de uma planta e produz uma quantidade aumentada de enzimas de celulose. Para ele ter sido aprovado, foi preciso provar que ele não gera esse impacto. Houve essa preocupação e ela foi investigada a fundo. Há outros itens a ser questionados, mas não os de impacto.

GR: Quais são esses outros itens?

Brondani: São questões comerciais relacionadas às certificações da madeira, que não incluem a madeira de eucalipto transgênico. Eles vão ter de rever esses critérios, até porque é a primeira variedade transgênica do mundo e ela foi desenvolvida aqui no Brasil. Assim como o feijão.

“A biotecnologia age em conjunto com o melhoramento genético. Um gene sozinho não faz milagre”

GR: Quantas variedades transgênicas o Brasil tem aprovadas e cultivadas?

Brondani: Cultivamos apenas soja, milho e algodão. No total, temos 93 aprovadas, 57 são plantas – soja, milho, algodão, eucalipto e feijão – e nem todas são comercializadas. A questão comercial é uma decisão de cada empresa, não da comunidade científica. E as empresas têm de respeitar a legislação de outros países. Se uma variedade de soja não é aceita na China, não será lançada comercialmente aqui. O feijão transgênico, já aprovado, também não é comercializado. É um produto importante porque é resistente a um vírus transmitido pela mosca-branca e sua adoção evitaria o uso excessivo de agrotóxicos. Mas produzir ou não essa semente é uma decisão totalmente empresarial.

GR: A biotecnologia é realmente necessária para a produção de alimentos?

Brondani: Sim. Se não tivéssemos a biotecnologia, seríamos dependentes de germoplasma. Por muitos anos, os melhoramentos genéticos foram utilizados até atingirem os melhores resultados. Mas chegamos a um ponto onde não era mais possível melhorar. Aí, entra a biotecnologia. Hoje, temos variedades de germoplasma de altíssimo nível, mas qualquer característica específica que precise ser mais expressada não terá um impacto grande se não houver introdução de biotecnologia. A biotecnologia age em conjunto com o melhoramento genético. Um gene sozinho não faz milagre.

GR: Quais são os países que estão adotando rapidamente a biotecnologia como o Brasil?

Brondani: Os países em desenvolvimento adotam mais rápido que os industrializados. Existem 28 países que cultivam transgênicos, 20 deles estão em desenvolvimento.

GR: Quais as principais diferenças entre uma semente transgênica e uma convencional?

Brondani: Não há diferença, e isso está provado. A Academia Americana de Ciências confirma que não há diferença entre os produtos convencionais e os transgênicos. A sociedade precisa saber disso para que possa fazer suas escolhas com segurança. O Brasil tem espaço para todos os tipos de culturas. Podemos ser convencionais, transgênicos e orgânicos. E que bom que o consumidor brasileiro tem o que escolher. Mas ele tem de saber o que escolher.

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